Alguns dos textos produzidos pelos participantes durante a oficina:

1. OTHELLO
Título original do filme: The Tragedy of Othello – The Moor of Venice
País de origem: Estados Unidos, Itália, França e Marrocos
Ano da produção: 1952
Direção: Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Michael MacLiammoir, Robert Coote, Suzanne Cloutier, Hilton Edwards, Nicholas Bruce e Michael Laurence
Duração: 93 min
Baseado no livro “Othello”, de William Shakespeare
Filme apresentado dia 02/09/2008
Análise de Claudio Rosa Araújo
Alguns podem se perguntar o que tem em comum Dom Casmurro e Machado de Assis. A resposta óbvia: os dois são gênios. Fato. Pois bem ora pois, não negarei nem o gênio, muito menos a humanidade. Aliás, vou me focar mais nisso. Humanidade, digo, o Homem.
Em Othello, podemos ver a indução do homem, a manipulação bem armada, algo que corrói e destrói o mais nobre do homem e o mais nobre que um homem pode ser. Shakespeare escolheu um grande guerreiro mouro. Agora, o que é usado para destruí-lo? O amor e, por consequência, o ciúme; aliado a um manipulador de lábia impecável (ou bem pecável). Já em Dom Casmurro, vemos a construção de um homem, a construção de seu amor e a conclusão com a dúvida. Quer coisa mais humana que a dúvida?
É através desta linha, deste fio condutor - o homem e seus questionamentos - que trabalhamos a discussão realizada na Biblioteca Roberto Santos, dentro da oficina Literatura no Cinema, conduzida pela professora Fabiana Vascon. Chegamos a pontos como a "jornada do homem", que não aprofundamos, só cutucamos. Precisamos ler Joseph Campbell (e quem não precisa?). A questão da relação homem-mulher ou da "instituição" casamento.
A intertextualidade nos proporciona coisas incríveis, como encontrar Iago em Dom Casmurro. Mais precisamente dentro de Bentinho, através de seu nome Bentinho Sant-Iago. Quer coisa mais clara que isso, a dúvida até no nome? Machado não fez sem querer. Ponto. A humanidade nos proporciona, felizmente, tais conversas entre seus gênios (mesmo separados por 400 anos) e, infelizmente, podemos conversar poucas vezes sobre isso.
Não gostaria que fôssemos como um pássaro que aprende coisas por necessidade, por sobrevivência e que, através disso, desenvolve métodos de pesca. Alguns deles geniais, mas que ficam com ele só até a morte. Por isso, deveríamos nos focar na genialidade, digo, na humanidade: no homem e na sua diferença, mesmo que escassa, chamada comunicação. É simples. Alguns já nos ensinaram e nos deixaram registros. Ao contrário do pássaro, nos basta olhar com atenção; ter um olhar mais atento, ter um certo frame - como nos disse Win Wenders no "Janela da Alma".
Refaço a pergunta: o que tem em comum Othello e Dom Casmurro? O que tem em comum Shakespeare e Machado? O que eu e você temos comum? Me reservo o direito de ficar com as dúvidas e de fazer as perguntas. E, de vez em quando, cutucar para ser provocado de volta.
PS: Temos que sair com mais perguntas de debates.
Clique aqui e localize uma cópia
do livro de William Shakespeare
na Bilioteca Pública mais próxima de você
Trecho do filme:
ASSISTIR
2. ABRIL DESPEDAÇADO
País de origem: Brasil
Ano da produção: 2001
Direção: Walter Salles
Elenco: José Dumont, Rodrigo Santoro, Ravi Ramos Lacerda, Flavia Marco Antonio, Rita Assemany, Luiz Carlos Vasconcelos, Wagner Moura, Othon Bastos e Gero Camilo
Duração: 95 min
Baseado no livro “Abril Despedaçado”, de Ismail Kadaré
Filme apresentado no dia 01/10/2008
Análise de Fabio Ramos
“Abril Despedaçado” foi o primeiro filme que Walter Salles realizou após o êxito de “Central do Brasil”. Impressionadíssimo com o que lera no livro homônimo de Ismail Kadaré, o cineasta logo vislumbrou a possibilidade de adaptar essa história de vingança entre famílias rivais para as telas do cinema.
Mas ao contrário do romance – cuja ação transcorria na Albânia, terra natal do escritor –, Walter optou em transpor aquela narrativa soturna para o nordeste brasileiro (ao encontrar diversas semelhanças da vendeta albanesa com o tradicional código de vingança nordestino).
Assim como em “Central”, o novo longa-metragem também é conduzido por um garoto. O personagem Pacu, interpretado por Ravi Ramos Lacerda, é o caçula da família Breves. Passando por dificuldades econômicas, eles agora plantam cana e produzem rapadura na única fazenda que possuem. Já com os Ferreira, que tomaram suas propriedades, a situação é completamente oposta: eles criam gado e desfrutam de uma vida próspera. A disputa pelas terras já resultou em mortes de ambos os lados; sendo que a última vítima é Inácio (irmão mais velho do menino).
Na cena em que os Breves são apresentados no filme, eles rodam em volta de uma bolandeira – instrumento circular acionado pelo caminhar dos bois – para extrair o caldo de cana. Quem determina o ritmo do mecanismo (e o destino sangrento da família) é o austero pai (José Dumont). Ali, cada um deve cumprir com a sua obrigação. Segundo a própria definição de Pacu, a função do seu irmão Tonho (Rodrigo Santoro) é “moer a cana” e a de sua mãe (Rita Assemany) é “recolher os bagaços”.
A camisa de Inácio está estendida num varal. E quando a mancha de sangue amarela, o pai ordena que Tonho – em nome da “honra” da família – vingue a morte do irmão. Apesar de não concordar com a perpetuação da barbárie, ele não questiona a incumbência estabelecida pela autoridade máxima da casa.
Tonho sabe que, se matar o Ferreira que assassinou Inácio, ele será o próximo da lista. Mas a sina severina se completa. O avô do falecido concede uma trégua ao rapaz; que só terá validade até o sangue na camisa do Ferreira morto amarelar. O velho amarra uma fita preta no braço de Tonho e diz que, a partir daquele momento, a vida dele se dividia entre seus 20 anos de existência e o pouco tempo que lhe restava. Em suma, ele está condenado a morrer sem conhecer o mundo e o amor.
Walter Salles foge dos estereótipos ao não retratar os nordestinos de “Abril Despedaçado” de forma caricata – algo tão recorrente nas novelas e no cinema nacional da atualidade. Para suavizar o caráter lúgubre da trama, ele introduz os personagens Salustiano (Luiz Carlos Vasconcelos) e Clara (Flavia Marco Antonio); por quem Tonho se apaixona. Os dois artistas mambembes, perdidos, vão parar na fazenda de Riacho das Almas (o lar dos Breves). Pacu indica o caminho da cidade aos andarilhos e acaba recebendo um livro de Clara em retribuição. Ele não sabe ler, mas passa horas imaginando a história ao observar as ilustrações de sereias e peixes.
Difícil é não se identificar com a sinceridade dos comentários do menino, que transbordam inteligência. Destoando da família – que não verbaliza seus sentimentos –, ele arremata frases memoráveis como “A gente é que nem os boi: roda, roda e nunca sai do lugar” ou então “Pai diz que é olho por olho. E foi por olho de um, por olho de outro... Olho de um, por olho de outro... Que todo mundo acabou ficando cego”.
Como bom nordestino, mantenedor das tradições mais questionáveis, o patriarca abusa da brutalidade para se impor. Ele bate em Tonho por levar o irmão ao circo, toma o livro de Pacu... Intimidando os familiares, o pai reforça a idéia que, ali, o seu desejo arbitrário é a lei (e que nenhum deles irá manchar sua “honra” e/ou a de seus antepassados). Mas nem mesmo o patriarca é capaz de destruir a cumplicidade entre os dois irmãos. Na cena em que o menino empurra Tonho no balanço, eles trocam de papéis pela primeira vez antes do desfecho.
“Abril Despedaçado” é um tremendo filme. Na minha opinião, Salles se superou ao realizar uma obra ainda melhor do que “Central do Brasil”. Para quem não assistiu, fica aqui a dica!
Clique aqui e localize uma cópia do livro de Ismail Kadaré na Biblioteca Pública mais próxima de você Trechos do Filme: CENA 1 CENA 2